Muito já se escreveu sobre os motivos da ocrrência e sobre a própria corrupção que nos corroe e muito mais se escreve a cada caso atual. A respeito da qual o público se espanta, um grande contingente de juizes populares se manifesta e páginas e páginas se enchem de críticas e condenações aos envolvidos. Invariavelmente, espera-se por providências cabíveis que a distensão da lei nem sempre contempla e, ao menos de imediato, muitas vezes a maioria dos autores sai ileso, com sorriso irônico nos lábios, pose de mártir e juras de isenção.
Nestes casos, todas as críticas traduzem o espanto pela moralidade abalada, pelos efeitos do ilícito sobre a economia popular e a execração pública recai sobre os maléficos autores. Mas, efeitos da raça humana e sem hipocrisia, vê-se que ocorre, aqui e acolá, uma velada e inconfessável ponta de inveja quanto a condição locupletada dos executores.
Até que, pelo inequívoco e inexorável passar do tempo, senhor do universo, uma incrível nebulosa vai se formando ao longo dos dias, envolvente a tudo e a todos, produto de uma fisiologia cerebral liberal e adventícia, comprometida com angústias mais imediatas e por isso condicionada a esquecer aquilo que não mais se cosntitui em estímulo suficientemente eficaz para manter o juizo crítico ativo e exigente. Sobrevindo um providencial esquecimento, pelo menos muito longe das críticas iniciais. E a maioria dos casos, por mais condenáveis que sejam, perde a pressão da opinião pública, para alívio dos culpados e, muitas vezes, para o conforto daqueles a quem caberia a apuração correta e a busca das soluções cabíveis.
A corrupção que nos vexa e outros ilícitos penais que redundam na insegurança a que o povo convive com aflição cada vez maior, com acomodação compulsória em muitos casos, são obras da mente humana desajustada.
Em outras palavras, acaso conhecemos algum dos males que nos afligem, e à humanidade como um todo, que não tenham seu nascedouro no homem, que é nosso próximo? É mais fácil conter enchentes, prevenir-se de furacões e amansar feras do que conter a maldade humana em sua totalidade e engenhosidade. Pelo simples fato de ser esta uma condição inerente ao filhos de Adão, desde a simbólica implantação, no centro do paraíso, da árvore do bem e do mal.
Os seres humanos possuem inúmeras condições em que a bipolaridade é regente de sua existência: a depressão e a alegria, a pobreza e a fartura, o norte e o sul, o positivo e o negativo, o calor e o frio, o amor e o ódio, que comportam-se de forma alterna e cíclica, como as ondas do mar, os cíclos da vida, das plantas, dos astros, das estações climáticas, do ciclo menstrual etc. Sobre alguns destes temos mais domínio, de outros menos, ou até não. Sobre o bem e o mal, que nos são inerentes, é uma destas circunstâncias em que um só cresce com a permissão cedida pelo enfraquecimento do outro e que, no caso do bem, a formação humana vinda do lar, dos mestres e dos superiores ensina como agir e diferenciar.
Mas que, entretanto, a permissividade da vida dada ao incorreto por moral pouco sólida, aliada à sensação de conquistas fáceis e, principalmente, de impunidade, ajudam a desvirtuar aquilo que cada um conhece como certo.
Pois que não se diga que nem um daqueles, exceto os interditos, que age contra a lei e a moral o faz por desconhecer as regras superiores de conduta humana. E sim, pratica o ilícito por uma banalidade concedida pela prática permissiva adquirida.
O que ocorre na vida pública e privada brasileira, ainda que, como um último ou até conveniente recurso, nunca antes tantos políticos tenham sido punidos por corrupção e tampouco os presídios tenham estado tão cheios quanto agora. É que a vulgarização dos atos ilícitos no seio da sociedade, de onde todos somos egressos, tem experimentado um visível incremento por desequilíbrio destas forças, onde visivelmente o bem tem se mostrado pouco eficiente, acovardado, fazendo de conta, com pouca firmeza e sem seriedade.
Uma sociedade fruto da família que pratica um bem "light" que vem perdendo a parada.