terça-feira, 22 de abril de 2008

Solidários no adeus

Quando uma comissão de ética de qualquer instituição se reune para deliberar de maneira conseqünte e objetiva, como de forma notória aconteceu recentemente no Senado, uma espécie de alerta, um sinal vermelho se acende. É uma sineta com o peso autoritário de uma velha mestra, daqueles de palmatória, a soar no íntimo dos seus menbros, cuja postura geral passa a sofrer a influência singular da incumbência. E, investigados e investigadores, modificam as prioridades de suas vidas de relação e funcional, ficando a mercê de emoções diferentes, as mais variadas, algumas até incomuns e que geram gestos inesperados.
Como foi o caso do amparo aparentemente incomum dado a José Roberto Arruda em sua despedida, por seus ex-colegas.Um membro qualquer neste tipo de tribunal, na fase de indiciamento, desperta em seus pares um sentimento ou emoção que nem sempre está ligado à aprovação ou não dada ao tipo de delito praticado. Sem relação a um comportamento concernente ou mesmo às suas alegações, as quais podem ser de negação ou de culpa; ou até ambas. Durante a inquirição e a deliberação que fluirá, seus pares serão tangidos em suas emoções. Haverão atos manifestos de acordo com a suposição ou convencimento de culpa do questionado. Mas, também e até principalmente, assim será de acordo com a imagem íntima e pessoal, nem sempre consciente, criada pelo investigado nos investigadores ao longo do tempo, desde antes. O que, de um lado, terá inevitável influnência no julgamento, este baseado no regimento próprio da instituição e que produzirá uma decisão baseada na lei. Mas, por outro lado, acionará sentimentos, imperceptíveis até, de aversão ou de simpatia centradas no indivíduo por seus julgadores.
Assim, é possível que de cada cabeça, independente da lei regimental que rege o funcionamento de uma determinada Comissão, emane variações éticas sobre um mesmo fato, as quais criarão uma dimensão individual em cada julgador, com conseqünte valorização moral, emocionalmente variável, dada ao questionado. Por exemplo, é possível que dentre os julgadores, de forma explicita e consciente, ou de forma escamoteada, este ou aquele um dia tenha pensado em cometer o mesmo delito, com plena justificativa íntima, não possuindo então e em relação ao fato recente a mesma rigidez que seu vizinho de bancada. E sim uma aquiescência permissiva, abrandando sua condenação e suavisando a emoção negativa em relação ao fato, simpática ao possível infrator, por que não.
Assim, com esta idéia e outras muitas alternativas não regimentais é possível entender o comportamento solidário da maioria dos escalados para julgar o senador José Roberto Arruda e que foi manifestado ao fim da sessão com a comunicação de sua renúncia. É possível que Arruda, ao renunciar, tenha produzido um sentimento de alívio, inicialmente em seus pares menos convíctos de sua culpa ou da real dimensão desta. É possível, também, que sua renúncia estivesse poupando seus julgadores de uma posição incômoda, por ene motivos, inclusive pela sensação inconsciente de estarem julgando a sí próprios. Embora os dois senadores indiciados tenham tido delitos de igual dimensão, mesmo assim é possível que por parte dos membros da Comissão a aversão a Arruda, construída ao longo dos anos, fosse menor que a aversão a ACM. É possível, por fim, por seu comportamento pinóquio, que seus pares o julgassem mais pueril e menos conseqüente em seu ato delituoso.
Na verdade, uma variável muito grande de motivos íntimos esteve por trás da salidariedade no adeus a Arruda em sua saída, inclusive por representar, para alguns, menos risco que seu companheiro de infortúnio. Foi assim percebido em Simon, Jucá, Suplicy, Barbalho etc; ainda que, em relação a este último, não tenha ficado bem claro se mostrava o caminho da saída ou se reconhecia a rota.....
De ACM esperava-se uma despedida com expectativa mais turbulenta, como sempre foi o seu estilo; diziam que sairia fazendo uso da "metralhadora giratória" que carregou durante toda uma vida política de silencios obsequiosos. Aliás, ao longo da qual encarregou-se de criar para si uma figura ambígüa nas relações políticas e pessoais, geradora de muito amor e muito ódio. Dos membros da Comissão, a maioria sentiu igual alívio no dia de sua renuncia e sentiu assim por serem poupados de sua condenação explícita, em política sempre um prato indigesto. Enquanto outros, fruto de suas relações passadas tormentosas, lamentaram não poder condená-lo com muito gosto.
E ao final, então, pelas mesmas emoções, algumas desconhecidas e outras não, entre seus pares foi saudado com justeza por sua altivez - como negar? - e cumprimentado por alguns que nele reconheciam algum tipo de paternidade, política ou não.
Enquanto muitos saudaram a doravante, talvez não definitiva, distância de sua malvadez(a).